
(…) Pões esperança e amargura — Vibras sombra e luz nas notas — E em surdina tens gaivotas — De saudade e de aventura — Coração tumultuário — Ó faminto coração — Solitário e solidário — A prender nuvens ao chão.Coração de melodia — Coração em que murmuram — Sol e lua se misturam — Em funda melancolia — De tantas fomes e sedes — Coração terno e violento — És perpetuo movimento(…)trecho de Faminto Coração de Vasco Graça Moura

faminto
coração
Algo ressoava em mim quando ouvia aquele poema em cantiga. Acompanhava as palavras com tom e melodia. Emocionava-me. Só muito mais tarde quando aprendi a olhar o mundo como mãe, as palavras desvendaram o seu significado. Naquele momento, o tempo e o significado cruzaram-se e vi no meu próprio reflexo a dimensão do amor dos meus pais. O amor de uma mãe por um filho não se conhece no instante em que ele nasce. Ser mãe levou algum tempo a fazer parte da minha identidade. Os filhos vão ocupando o seu espaço e ensinam-nos que tudo o que tinhamos pensado ser amor, ganhou uma 4ª dimensão. O tempo reinventa-se e torna-se deslumbramento, Uma oportunidade única de voltar-mos a olhar com carinho para a criança que fomos, agora como mãe de nós mesmos. Tudo acontece na tensão de dois polos, proporcional ao amor existe - o medo ( de os perder, de não gostarem de nós, de lhes faltar...), tão intimamente ligados, fazem parte do mesmo conceito. Tornamo-nos incondicionais. Reconheci o privilégio de também ter sido amada assim e esta concretização arrebatou-me. Quando somos pais, apaixonamo-nos pela ideia de sermos alguém que importa e ganhamos o privilégio de ver um Ser a ser. Comecei a ver-me pelos olhos dos meus pais e tudo ganhou uma nova perspectiva. Tantas certezas da adolescência, as promessas que fiz a mim mesma sobre quem queria ser e sobre o que jamais seria, as minhas certezas, a minha moralidade, tudo se relativizou. Vi neles a minha essência, hoje sei que não tinha escolha: sou metade de cada um. Sou Lurdes. Sou Manuel. E eles são a força do meu carácter. O orgulho que tenho neles é o orgulho que tenho em mim. Descobri que o amor vive naquele olhar silencioso e vigilante, pronto para me acolher. Sem tempo nem condições. Será que o amor se revela quando não há felicidade? Somos duas metades, pai e mãe. Somos simetria, esquerda e direita. Somos dicotomias, Luz e sombra. O belo e o feio, o riso e o choro, a dor e a paz. Um coração faminto é amor e é fome. Nele encontramos grandeza, mas também encontramos carência. Estes corações vivem numa espécie de bulimia entre o amar demais e o medo de não ser amado. A sua estrutura é frágil, exposta ao muito ou ao pouco que os outros lhes dão. Aceitam que sofrem... para que lhes seja possível continuar a sentir. Dedicado a quem ama e magoa — para que encontre dentro de si o que procura nos outros.
frag men tos
As peças desta colecção surgiram de forma natural, como algo que existia silencioso dentro de mim.
São capturas de pequenas memórias, imagens e sensações que ficaram da minha relação enquanto criança com o território dos meus pais. Um património que também definia na minha maneira de olhar o mundo, mas que nunca estive consciente da sua importância. A terra, o material orgânico que agarra, alimenta e faz crescer, mas que também é o lugar das origens e da matriz afectiva.
ano 2023
título faminto coração
materiais burel + madeira
dimensões 100 × 180 cm
Faminto Coração é a peça central desta colecção, de onde derivaram todas as outras. Esta peça escultórica representa de uma paisagem interior e explora a dualidade entre força e fragilidade, entre o grande e o vulnerável, a contenção e a expansão. um lugar instável, onde a dor e o amor se enredam num caos emocional tornando-se um só.
faminto
coração
exposição temporária, Manteigas, 2023













